Alice Viveiros de Castro

CAREQUINHA
O PALHAÇO MAIS QUERIDO DO BRASIL


    - Alô, garotada! Tá certo ou não tá?
   

Milhões de crianças em todo o Brasil cresceram respondendo aos gritos: “Taaaá! Gerações e gerações tiveram a alegria de assistir seus programas na TV, ver Carequinha em shows, circos e até nas festas de aniversário. Carequinha estava em toda parte. E era amado por todos. E ainda é amado e querido em todo o Brasil.
George Savalla Gomes nasceu no circo. Sua mãe estava no picadeiro no alto do arame quando começou a sentir as primeiras dores do parto. Não era a primeira vez que uma criança de circo nascia assim, no meio do espetáculo, numa barraca atrás da lona.  George fazia parte de uma família de circo e cresceu viajando, brincando no alto da lona, fazendo estripulias e assistindo os espetáculos.

Com 5 anos entrou em cena pela primeira vez e foi batizado por seu padrasto que o apresentou ao público dizendo: - Esse é o palhaço Carequinha! 
O menino sabia fazer graça e foi crescendo como artista, conquistando o reconhecimento do público e de seus colegas de profissão. Trabalhou no circo de seu avô onde aos 12 anos já era o palhaço principal. Seguiu no circo de seu pai e fez carreira em grandes circos como o Atlântico e o Olimecha.
Foi no Circo Olimecha que trabalhou pela primeira vez com seu parceiro mais constante, Fred. A dupla Fred e Carequinha fez história e apesar de ter trabalhado com outros parceiros foi a mais constante em toda a sua carreira.
Sozinho ou em dupla, com Fred ou com outros parceiros, Carequinha já era famoso quando no Brasil chegou o Circo Sarrasani, um dos maiores e mais famosos do mundo. O dono do Circo queria ter palhaços brasileiros, que falassem o idioma e que conhecessem bem a plateia daqui, por isso contratou Fred e Carequinha. A dupla arrasou e o sucesso marcou a trajetória do palhaço mais querido do Brasil.
Quando foi inaugurada a primeira televisão no Brasil ( TV Tupi/São Paulo e logo depois a TV Tupi/Rio de Janeiro) os produtores tiveram a ideia de contratar os dois palhaços mais conhecidos e queridos pelo público: Arrelia em São Paulo e Carequinha no Rio de Janeiro. 
Carequinha conta como foram difíceis os primeiros programas. A televisão era ao vivo e, portanto, não havia espaço para nenhum erro ou imprevisto. Havia uma só câmera o que limitava muito os movimentos do artista, que por exemplo ficava com dificuldades para fazer sua especial cambalhota. E o que mais irritava o palhaço era a falta das risadas e da alegria da criançada. Já na segunda semana o Circo Bombril inaugurava o programa com plateia, o primeiro no Brasil. E Carequinha foi chamando outros artistas e ganhando as risadas do público infantil na plateia em diante das televisões de todos os lares.
Foram 16 anos de sucesso e de muita correria. A trupe do Carequinha começou a ser convidada para fazer programas em Belo Horizonte, Paraná, Rio Grande do Sul e apresentações especiais por todo o Brasil. Apresentavam o programa no Rio e depois corriam para pegar um avião, um trem ou ônibus, isso tudo há mais de 70 anos!!! Imaginem como era viajar de avião? E como eram as estradas? 
Carequinha nunca parou de trabalhar. Seja com a trupe da televisão formada por Fred, Zumbi, Meio Quilo e Polydoro, com outros artistas convidados ou sozinho. A trupe podia ter até 10 pessoas ou só o Carequinha. Mas sempre era um prazer para a garotada. E o palhaço sabia como tirar proveito das dificuldades seja pelas características dos espaços e dos imprevistos que sempre aconteciam.
Além da TV, Carequinha era chamado para abrilhantar festas de aniversário. Foi a atração dos aniversários dos filhos do presidente Getúlio Vargas, das filhas de Juscelino Kubischek e João Goular. Essa tradição seguiu com os generais da Ditadura Militar (1964 – 1985). Sua relação com Juscelino foi especial. É dele a primeira gravação de Peixe Vivo, música que virou o tema do presidente que foi cassado no pelo regime militar. Uma marchinha tradicional que se transformou numa música de protesto.
As famílias ricas queriam Carequinha e sua turma nos aniversários de seus filhos e as crianças adoravam. Virou moda
Certa vez, o então ministro da Cultura, Celso Furtado e sua esposa, Rosa Freire D´Aguiar foram assistir ao espetáculo de formatura da Escola Nacional de Circo Luiz Olimecha. Era um momento muito especial pois pela primeira vez um Ministro da Cultura visitava a Escola de Circo. Economista respeitado em todo o mundo a situação era solene, Celso era um homem sério e sua esposa uma mulher muito educada e culta. Todos estavam preocupados em agradar e ficaram atentos aos mínimos detalhes. 
Os circenses do Rio de Janeiro aproveitaram a oportunidade para entregar ao Ministro um documento com reivindicações da classe. Um pequeno grupo de representantes dirigiu-se muito respeitosamente ao camarote do Ministro. Como estava combinado o primeiro a falar era o Carequinha, o artista mais conhecido e querido. Sem maquiagem, sem a roupa tão conhecida, com seus cabelos negros apresentou-se como George Savalla-Carequinha. Pronto! Toda a formalidade da cerimônia acabou ali mesmo! Rosa, a esposa do Ministro deu um grito, começou a chorar de emoção e não parava de dizer: “você foi na minha festa de aniversário! Nunca me esqueci! Foi o dia mais feliz da minha vida!!!!” Abraçando-o emocionada e feliz. Carequinha de olhos molhados e a comissão dos artistas circenses entregou o documento, mas a oportunidade de ter a atenção do Ministro foi por água abaixo... 
Ainda bem que Carequinha, assim como Fred Villar, sempre foi um artista combativo e presente nas lutas da classe artística. Por diversas vezes fez parte da diretoria do Sindicato dos Artistas e Técnicos e sempre estava presente nos atos beneficentes. A classe sempre teve no Carequinha um ativo porta voz. 

As festas particulares eram comuns, mas em depoimento exclusivo, ainda não publicado, Carequinha contou uma das mais bizarras situações que ele e Fred enfrentaram. Contratados por uma família muito rica foram fazer um espetáculo para duas crianças. Situação difícil para palhaços, pois o riso coletivo é mais gostoso e funciona melhor. Mas apesar de rara essa não seria a única vez que se apresentariam para um público tão pequeno. O que nunca imaginaram é que as crianças iriam ficar quietas como estátuas e que não ririam de nada. Nada Uma piada, nada. Uma cena acrobática com tapas e quedas, nada! As crianças sérias, quietas e uma governanta mais séria ainda...A situação estava ficando cada vez mais constrangedora, até que Carequinha resolveu perguntar, usando sua voz tão conhecida, com muita doçura, se elas não estavam gostando. Quem sabe preferiam ouvir uma das canções tão adoradas pelas crianças? A governanta, então, explica que orientou seus pupilos a nunca rirem dos artistas, seria um desrespeito! 
Quem caiu na risada foram os palhaços. Fred e Carequinha passaram a usar a situação inusitada fazer novas brincadeiras e o show acabou em gargalhadas e muita alegria.
 

O Palhaço Moderno

Carequinha entendeu rapidamente qual era o seu papel atuando para milhares de crianças na televisão. O palhaço é sempre uma figura atrapalhada, que apanha, recebe pontapés e faz muita bobagem. Essa figura cômica não era muito “adequada” para crianças que assistiam o programa sem supervisão. Até hoje se usa a expressão “não façam isso em casa”, alertando quanto aos perigos de repetir coisas perigosas ou inadequadas que, apesar de serem engraçadas quando ditas por palhaços podem ser muito inadequadas em outras situações.
A maior e mais importante mudança que Carequinha imprimiu no seu palhaço foi por conta desse cuidado para não desagradar as famílias. Por isso criou o que passou a chamar de Palhaço Moderno. Um palhaço que é um herói para as crianças, que não apanha, que é quem engana o clown e que sempre dá bons exemplos e conselhos para a garotada.
“Inventei uma nova escola de palhaços. Até então as pessoas riam da desgraça do palhaço que apanhava como ele só. Não gostava disso e virei o herói da história. Os outros se davam mal. Mas o Carequinha não”. 
Pioneiro incontestável na televisão, sabia muito bem da sua importância na história dos programas infantis: 
“Eu inventei essas brincadeiras com crianças, tão comuns hoje nos programas infantis. Eu pegava as crianças para dar cambalhota, rodar bambolê, calçar sapatos, vestir paletó primeiro, brincadeiras com maçã e furar bolas. “
Numa inversão total do papel milenar do palhaço, nascia ali um palhaço bem comportado.... Carequinha percebeu o que o novo meio de comunicação esperava dele, e sem saber, acabou se tornando a primeira “babá eletrônica”....
Ensinava bons modos de um jeito divertido e toda criança sabia e ainda sabe que:


O bom menino não faz pipi na cama
O bom menino não faz malcriação
O bom menino vai sempre à escola
E na escola aprende sempre a lição
O bom menino respeita os mais velhos
O bom menino não bate na irmãzinha
Papai do céu protege o bom menino
Que obedece sempre, sempre a mamãezinha
Por isso eu peço a todas as crianças
Muita atenção para o conselho que eu vou dar
Olha aqui
Carequinha não é amigo de criança que passa de noite da sua cama pra cama da mamãe
E também não é amigo de criança que rói unha, e chupa chupeta
Tá certo ou não tá?
Tá!
Eu obedeço sempre a mamãezinha
Então aceite os parabéns do Carequinha


Com o compacto da canção O Bom Menino, de Irany Oliveira e Altamiro Carrilho, gravada em 1962, Carequinha vendeu 2 milhões e 500 mil discos. 
Esta cifra é impressionante ainda hoje. Se considerarmos a população do Brasil na época e o número de habitantes que possuíam aparelhos de som é, ainda, um dos discos mais vendidos no país. Foram mais de 50 discos gravados. Provavelmente seu maior sucesso não foi uma música para crianças, mas sim a valsa Alma de Palhaço, em parceria com Fred Villar.
Em 1958, lançou seu primeiro sucesso, a marchinha de carnaval Fanzoca de Rádio, de Miguel Gustavo.
Participou de 5 filmes e todos levaram multidões aos cinemas. 

1.    Sai de Baixo, 1956
2.    Com jeito vai, 1956
3.    Com água na boca, 1957
4.    Sherlock de araque, 1958
5.    O palhaço o que é?, 1959

     Carequinha continuou trabalhando em shows por todo o país. Em 1985 retornou à televisão com o Circo Alegre do Carequinha, na recém inaugurada TV Manchete. Participou também da inesquecível Escolinha do Professor Raimundo, de Chico Anísio, na TV Globo. Sua última participação na televisão foi na mini série Hoje é Dia de Maria, da TV Globo em 2005.
   Faleceu em casa no dia 5 de abril de 2006 e a seu pedido foi enterrado com seu terno de palhaço.
   George Savalla Gomes deixou saudades, mas o palhaço Carequinha está vivo para sempre nas lembranças das crianças de todos os tempos. Carequinha é o palhaço mais querido do Brasil!
    Tá certo ou não tá?


 Alice Viveiros de Castro